Projeto explora potencial da raça Jersey

                                                              


Projeto explora potencial da raça Jersey

Assunto: 10 Artigos Mais Lidos

Autor: J. Santos


Data da publicação: 18/06/2012

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J. Santos Quando iniciou, em 2001, o projeto de produção de leite com vacas Jersey, na Fazenda do Padre, em Barbacena-MG, Anselmo Vasconcellos Neto tinha tudo bem planejado quanto a onde pretendia chegar. Até o objetivo final, tudo iria se desdobrar em três etapas. Primeiro, se tornar um criador de destaque na raça; depois, montar uma usina para processar leite, e, por fim, disponibilizar animais de alto padrão genético a preços acessíveis, como forma de contribuir para a pecuária leiteira nacional. "Sempre tive claro que isso demandaria investimentos, e muito mais: um trabalho sério, detalhado e feito com muita dedicação, fosse com 10 ou com 200 vacas", explica o criador, que é engenheiro civil e empresário do ramo de materiais de construção e de calcário agrícola. A atual história é uma retomada da atividade pecuária, depois de abandoná-la em 2005, após experimentar a exploração leiteira e de gado de corte. Quatro anos depois, quando se deu conta, já estava com o pé dentro de uma nova fazenda, que recebera como pagamento de uma dívida. A ideia de criar Jersey veio quase em seguida, ao comprar uma vaca prenha num leilão de um amigo. Ela pariu duas bezerras. Aquilo o encantou e o estimulou a pensar num projeto leiteiro mais seriamente. Para tocar adiante o projeto, Vasconcellos precisava de uma fazenda estruturada para produção de leite. Foi então que em 2001 comprou a Fazenda do Padre, que pertencia a Elos Noli, selecionador de gado Holandês. A propriedade de 110 ha fica entre morros e várzeas na Serra da Mantiqueira.


                                                                         

"De início, como junto com a fazenda vieram algumas novilhas Holandesas, tive a ideia de produzir leite com as duas raças. Para começar fazendo a coisa certa, busquei orientação com amigos criadores e especialistas em gado leiteiro para adquirir animais de alta genética das duas raças", ele conta. Então, se deu conta de um grande erro. Comprara muito gado e se deparou com a triste realidade: não produzia alimento suficiente para o gado.

"É um erro que muitos fazendeiros cometem, esquecendo-se do principal, que é garantir alimento de qualidade para o rebanho", diz ele, explicando que resolveu, então, vender as vacas Holandesas e se concentrar no rebanho Jersey. Mesmo assim, ainda sobraram algumas boas vacas Holandesas, que hoje representam cerca de 10% do rebanho total. "Daí, foquei na seleção de animais para tipo, boa produção, resistência e longevidade, características que formam a matriz ideal para o rebanho que estava buscando", relata.

Valorização das categorias jovens - Tal meta o levou a comprar animais de criatórios brasileiros de renome e também do Canadá. Nessa busca, contou com o auxílio dos donos da Fazenda Nogueira Montanhês, de Piracaia-SP, de quem adquiriu excelentes fêmeas. Mas para apresentar seu rebanho em exposições, optou apenas por animais crioulos, o que o levou às pistas com o que dispunha: bezerras, novilhas e vacas primíparas, que se sagraram campeãs em várias exposições. "O ápice veio com o título de melhor criador da Feileite 2010, o que consagrou a primeira meta do projeto, ao ser reconhecido como criador dentro da raça". Hoje, seus animais de pista mais velhos têm quatro anos de idade, enquanto dentro do rebanho cerca de 60% das vacas são primíparas. Vasconcellos conta que para se decidir sobre acasalamentos escuta outros criadores, além de especialistas em genética de algumas centrais. Explica que sempre buscou tipo nas matrizes, mesmo que perdessem um pouco em produção. Tem como referência vacas de 11 mil kg por lactação, o que para a raça Jersey é um indicador muito expressivo. "Essa é a vaca ideal, uma marca que deve vir acompanhada de boas pernas, bom úbere e longevidade". Considera que o acasalamento é o início de tudo, mas também admite que genética não é algo tão preciso como gostaria.

                                                                   

Cada animal traz uma carga genética de sua família e, por isso, sua base da seleção é por família, o que dá maior segurança para se obter bons resultados. "As novilhas que comprei em parceria com um criador canadense, por exemplo, têm em sua genealogia nove mães 'excelentes', o que reduz em muito as chances de algo dar errado". E para ganhar mais eficiência no processo de acasalamento, a Fazenda do Padre está investindo na nova tecnologia dos marcadores genéticos.

Para isso, já foi feito o mapeamento do DNA de todo o rebanho, com análise de marcadores, como gordura, proteína, tipo, produção, reprodução, células somáticas, entre outros. "Através dos resultados, teremos maior segurança nos acasalamentos e a combinação genética desejável para chegarmos à nossa vaca ideal", diz ele. Os negócios com o Canadá o levaram a visitar mais de 15 criatórios de renome, onde adquiriu 300 embriões, que serão implantados nas vacas assim que as obras de infraestru tura forem concluídas na fazenda. Esse contato lhe rendeu amizade com alguns jersistas de lá, a ponto de fazer parceria com um deles, Andrew, da Avonlea Farm. "Juntos, compramos três excelentes novilhas num leilão, as quais ele cria por lá para coleta de embriões. Assim, vamos ter embriões a um custo mais em conta", explica Vasconcellos, destacando que uma delas, "Lone Pine on Time Believe", com sua primeira parição prevista para dezembro, foi a reservada grande campeã jovem no Salon International Laitier-2012, em Quebec.



Assim, vamos ter embriões a um custo mais em conta", explica Vasconcellos, destacando que uma delas, "Lone Pine on Time Believe", com sua primeira parição prevista para dezembro, foi a reservada grande campeã jovem no Salon International Laitier-2012, em Quebec.

Quer equilíbrio econômico da atividade - Sob a condição de melhor criador de Jersey em 2010, começou, agora, a entrar em cena a segunda etapa de seu projeto. "Nessa nova fase, o foco é aprimorar a produção e buscar o equilíbrio econômico da atividade", diz ele. Dessa etapa fazem parte a construção de um free-stall, para 180 animais, e de uma sala de ordenha 6/12, automatizada. Em instalação contígua, faz parte também uma usina de beneficiamento, com capacidade para processar 2 mil litros de leite/hora, além de produção de manteiga e creme de leite. "A meta é que esse complexo esteja funcionando até o mês que vem".

Já tem acertado com uma rede de supermercados a colocação dos produtos, com um marketing focado na qualidade do leite Jersey. Ele adianta que o slogan do leite A desnatado, destacando o diferencial do leite da raça, será: "Previna-se da osteoporose sem perder a silhueta". Hoje, o rebanho da Fazenda do Padre é formado por 340 animais Jersey, de mamando a caducando, além de umas 40 fêmeas da raça Holandesa. As 90 vacas em lactação produzem 1.800 litros, com média de 20 litros/vaca/dia. "A meta é chegar a 25 litros/vaca/dia e, em seguida, a 4 mil litros". Para isso, conta com uma equipe competente e comprometida para atingir cada meta, além de consultores especializados em cada aspecto da atividade. Na coordenação das tarefas está Leonardo Manoel Barbosa, gerente geral da fazenda, que explica que para a área de produção de alimentos (silagem de milho, aveia, tifton e azevém pré-secados) a orientação é do agrônomo, Gabriel Lara, da Via Verde; na sanidade e clínica, do veterinário Marcos Paulo Miranda; na reprodução e genética, do veterinário Luís Paulo Miranda e, na nutrição, de Flávio Junqueira.


"Cada um deles faz sua parte tendo em vista o trabalho dos outros, de modo que no final tudo funcione em harmonia para o melhor desempenho do rebanho", destaca Barbosa, observando que o pessoal operacional trabalha da mesma forma, em equipe, sendo cada funcionário responsável por uma área específica. Como exemplo de ação eficiente, conta com o programa de vacinação aplicado em cada categoria, mas que tem início com as bezerras para se prevenirem das doenças transmitidas pelos carrapatos.

O manejo correto e cuidadoso nessa fase é fundamental, destaca Barbosa. Logo que nascem, as bezerras recebem o colostro e, em seguida, vão para as casinhas individuais, onde ficam até os 90 dias de idade, quando desmamam. Nesse período, recebem 4 litros de leite por dia, na primeira quinzena, e depois 6 litros de leite mais concentrado para a idade. Do 91º dia até os 14 meses, silagem de milho mais concentrado. A partir dessa idade, atingindo os 250 kg, são liberadas para a inseminação artificial. Confirmada a prenhez, são separadas em lotes num piquete adequado e 30 dias antes do parto passam a receber dieta pré-parto. Desde o nascimento até o parto, os animais são pesados mensalmente. Depois que estão nas casinhas individuais, as bezerras começam a ser avaliadas para pista e as selecionadas recebem um manejo totalmente diferente. "A dieta tem outra formulação, sendo-lhes fornecido feno no lugar da silagem, por exemplo. São tratadas, cabrestadas e banhadas periodicamente", relata ele, ressaltando que a seleção é feita ao longo de seu desenvolvimento. São separadas 5-6 de cada categoria e no final sobram duas ou três selecionadas.

Monitoramento diário dos animais - Quer animais bonitos e resistentes, acrescentando que é feito o monitoramento diário dos animais e que, diante de qualquer suspeita, são realizados exames de sangue. Acrescenta que a propriedade está prestes a receber a certificação de rebanho livre de brucelose e tuberculose. Alguns índices mostram os acertos do manejo: o intervalo entre partos é de 13 meses em média, enquanto as novilhas dão a primeira cria aos 24 meses. Do total das vacas aptas para a produção, 90 estão em lactação, e 20, secas.

Como o rebanho está em formação, com muitos animais jovens, a estabilização ocorrerá na terceira etapa, o que equilibrará mais a relação entre animais em lactação, secos e em desenvolvimento. A mortalidade de bezerras gira em torno de 5%, o que vale também para os animais jovens até o primeiro parto. O custo da produção de leite, nos últimos doze meses, gira em torno de R$ 0,70/0,72, para um recebimento de R$ 0,96. Quando estiver comercializando o leite A, a expectativa é receber R$ 1,40 por litro.

A qualidade do leite produzido na Fazenda do Padre se mantém na média de contagem de células somáticas abaixo de 200 mil/ml; contagem bacteriana total, média de 10 mil UFC/ml; proteína, 3,7%; gordura, 5,8%. "A expectativa é de que o laticínio se pague e cubra os custos do processamento, distribuição, e que o lucro adicional venha da venda de animais e de embriões", diz Vasconcellos, revelando que já recebeu oferta para exportar embriões, mas, por enquanto "é coisa para se pensar mais para o futuro".

Vasconcellos tem certeza de que logo chegará à terceira etapa de seu projeto: venda de animais Jersey de alto padrão genético a preços de animais comerciais. Ele faz uma simulação, com base em valores praticados hoje: uma fêmea top vale entre R$ 20 mil e R$ 50 mil; ele venderá uma novilha prenha de alto padrão por R$ 5 a R$ 6 mil, enquanto, hoje, uma matriz de primeira cria, sem seleção, está sendo comercializada por R$ 3 mil a R$ 4 mil.

Nessa última etapa, com o rebanho estabilizado, a meta é disponibilizar no mercado em torno de 100 a 120 animais por ano (umas 90 fêmeas, mais FIV e embriões). "Isso vai gerar uma melhoria da qualidade do leite, já que o leite Jersey se destaca por seu maior teor de sólidos, nos rebanhos que introduzirem esses animais. Além de outras vantagens da raça, como precocidade, resistência, maior conversão alimentar e longevidade. Essa contribuição é que será o coroamento e a minha satisfação como criador", arremata ele.