Ovinocultura: Potencial e realidade produtiva atual – Por que tamanha distância?(1º Parte).

Autor: Marcos de Faria Ronca


Para iniciarmos essa discussão é importante definirmos a princípio o que seria o potencial da atividade. Para tanto, nada melhor do que analisarmos sua possível rentabilidade por área. Nesse caso, partindo de alguns parâmetros, como os apresentados na tabela abaixo:


Figura 1: Parâmetros utilizados na projeção do faturamento por área.


É importante considerar que esses índices zootécnicos utilizados para essa projeção de receita são positivos, porém nada de absurdo. Ou seja, é possível alcançá-los e até mesmo superá-los dependendo do grau de profissionalismo da propriedade.


Considerando todos esses índices/dados, poderíamos atingir um faturamento aproximado de R$10.000 por hectare/ano a partir do momento em que o rebanho estivesse estabilizado. Para tanto, estaríamos abatendo machos e fêmeas.


No entanto, a grande pergunta que surge logo em seguida é: Por que ainda existe uma enorme distância entre esse potencial e o que enxergamos no campo? Por que a atividade ainda não deslanchou mesmo com esse potencial?


São justamente essas questões que considero importante serem debatidas para que reflexões sejam geradas com o objetivo de atacar esses gargalos. No fim, para que essa projeção e potencial possam se consolidar como resultados práticos das fazendas que trabalhamos.


Em primeiro lugar quero destacar o fator profissionalismo (ou falta de): Embora, felizmente, estejamos vivendo um momento em que aparecem cada vez mais produtores interessados em desenvolver uma gestão profissional, até aqui, posso afirmar que a grande maioria dos que entraram na atividade, pensaram e agiram como se fosse mais uma criação simples, onde apenas o conhecimento empírico ou o instinto levassem ao sucesso, e que sendo assim, não precisariam de acompanhamento técnico especializado. Se criassem a tal raça que o vizinho comentou ou que leram na revista, os resultados apareceriam naturalmente.


Mais uma vez aquela sensação de que estavam descobrindo a chave do sucesso a baixo custo parece que contaminou uma boa parte. Aliado a isso, a pouca disponibilidade de mão de obra com experiência e conhecimento na atividade também foi um fator que agravou o quadro, ou seja, aqueles poucos que procuravam ajuda técnica também não tinham grande êxito. Dessa forma, conceitos amplamente divulgados como se fossem verdades absolutas, mas sem fundamentação teórica e práticas consistentes, foram se disseminando no famoso boca a boca. Desse roteiro, surgiram as “convicções” de que determinadas raças eram as necessárias e com isso o modismo característico contaminou o negócio. Instalações caras (como os famosos pisos ripados) e sistemas de produção onerosos (alimentação de diversas categorias em confinamento) foram disseminados para todo o lado. E o pior, como se fossem REGRAS, como se não existissem fatores individuais e locais...  Ao invés de trabalharmos com o melhoramento genético dos indivíduos e das raças que melhor se adaptavam a determinada situação, escolheu-se as raças do momento e o foco passou a ser as pistas e leilões.  


Estando há mais de 10 anos na atividade, ainda me impressiono quando encontro situações em que o produtor de tal raça propaga que a que ele cria é a salvação e a solução para a ovinocultura. A sensação é de como se estivesse voltando no tempo... Esquece-se que ao se simplificar tanto assim, a chance de dar errado é proporcional ao nível de simplificação.


Preferimos simplificar ao invés de trabalharmos os dados e índices do rebanho. De avaliar os animais frequentemente. Para que afinal? , se meu animal é P.O!? Até quando iremos manter essa mentalidade?


Sim, dá trabalho fazer um controle zootécnico com precisão, mas como podemos evoluir sem um controle mínimo. Como poderemos ser mais eficientes e atingir, por exemplo, os índices descritos no início se nem ao menos conhecemos o histórico dos animais?


Nesse ritmo, preferiu-se sempre priorizar as raças em detrimento da ovinocultura. Inclusive a utilização dos cruzamentos entre raças como ferramenta importante para garantir ganhos mais rápidos por meio da heterose foram deixados de lado já que o interesse maior estava em produzir tal raça.


Foto 1: Fêmeas ½ sangue que em muitos casos são excelentes opções, muitas vezes deixam de ser consideradas.


Foto 2: Apriscos de piso ripado ainda aparecem como regra em muitos locais.


Nesse contexto, enquanto não nos acostumarmos a controlar os dados produtivos, assim como os financeiros, dificilmente obteremos resultados satisfatórios.


Em síntese, desde o final dos anos 90 e início dos anos 2000, a ovinocultura vem se destacando como uma atividade de grande potencial para áreas menores e mais valorizadas. Infelizmente, esse potencial continua pouco explorado na medida em que o modismo e a expectativa de ganhos imediatos se sobrepõem a busca por mais profissionalismo e controle dos índices produtivos.


Nos próximos artigos irei abordar outros pontos que julgo terem relação direta com essa enorme distância que ainda existe entre o potencial da atividade e a realidade produtiva atual. Até lá!