Novos conceitos para a implantação de cafezais de alto potencial

 Novos conceitos para a implantação de cafezais de alto potencial

Incentivada pelos bons preços dos últimos anos a cafeicultura tem expandido cada vez mais nas regiões tradicionais e também para regiões marginais, antes consideradas inaptas para o cultivo do cafeeiro. Em tempos de outrora, só se plantava café nas antigas terras roxas estruturadas, de excelente fertilidade químico-física, algo que definitivamente ficou para trás, haja vista a quantidade de lavouras de café de boa produtividade instaladas em áreas de textura mais arenosa e de baixa disponibilidade inicial de nutrientes, como alguns latossolos de textura média e neossolos quartzarénicos.
A ViaVerde Consultoria tem adotado algumas técnicas que recentemente tem se mostrado de grande valia para o bom desenvolvimento inicial e formação do cafezal, tanto em áreas consideradas ideais ao cultivo, como em áreas de manejo mais delicado como as descritas acima.
Preparo profundo de solo
Tradicionalmente o preparo do terreno para o plantio de café é realizado mediante a incorporação dos corretivos em área total, seguido da abertura do sulco e adição dos fertilizantes fosfatados, calcário e esterco, a uma profundidade de no máximo 30 cm.
Sabe-se, porém, que o café é uma planta perene que pode desenvolver raízes a até três metros de profundidade se fornecidas condições químicas adequadas, como teores suficientes de cálcio, fósforo, boro, zinco e ausência de alumínio. São necessárias também condições físicas de solo adequadas como o rompimento de camadas adensadas, que impedem o crescimento radicular e a difusão de oxigênio, elemento fundamental para o desenvolvimento de raízes.
Baseados neste conceito muitos cafeicultores vêm no preparo vertical uma estratégia interessante para explorar camadas de solo mais profundas, que possam fornecer água ao cafeeiro por mais tempo em caso de veranicos e secas. Na prática já se observa vários casos de lavouras implantadas no sistema de preparo profundo associado a gesso, resistindo bem ao déficit hídrico em relação a lavouras convencionais, de sistema radicular superficial.
O preparo profundo é realizado com uma haste subsoladora que pode incorporar fertilizantes fosfatados ou calcário a até 90 cm de profundidade. Uma alternativa interessante tem sido a aplicação de termofosfato magnesiano, um fertilizante fosfatado de alta eficiência agronômica. Sua vantagem em relação às outras fontes é a liberação gradual de nutrientes, além de sua reação alcalina que favorece a diminuição do alumínio em profundidade e aumenta a disponibilidade do fósforo. O termofosfato magnesiano também fornece cálcio, magnésio, enxofre e micronutrientes, portanto esta é uma fonte completa para o fornecimento dos principais nutrientes envolvidos no desenvolvimento radicular.
Plantas de cobertura
O solo possui atributos químicos, físicos e biológicos. Se um destes componentes colapsa, todo o sistema de produção pode ser comprometido. Foi observando os grandes benefícios proporcionados pelo sistema de plantio direto que pesquisadores, consultores e cafeicultores apostaram no uso de plantas de cobertura para amenizar os efeitos das intempéries climáticas e melhorar a qualidade do solo.
Após o preparo profundo do sulco é realizado o plantio de um mix de plantas de cobertura na entrelinha. Nas figuras abaixo as plantas de cobertura utilizadas foram milheto, braquiária e crotalária em uma das propriedades assistidas pela ViaVerde Consultoria. Cada planta é utilizada para uma finalidade.

Plantas de cobertura já implantada antes do plantio de café, sulco com preparo vertical e alinhamento com GPS.

Café implantado e plantas de cobertura já estabelecida.
Faz. Grama – Arceburgo/MG

O milheto pode chegar a 1,5 m de altura, o que o torna um excelente quebra-vento na entrelinha. Com a realização da roçada alternada é possível manter as mudas de café protegido dos ventos, que podem entortar os caules e facilitar a disseminação de doenças.
A crotalária é inserida com o objetivo de fixar nitrogênio para as outras coberturas e diminuir a população de nematóides, que hoje são um problema sério nas principais regiões cafeeiras.
Por fim é utilizado a braquiária que deverá persistir no sistema após a roçada, pois é a única planta perene dentre as três. Esta é a planta mais importante do mix, pois possui sistema radicular agressivo e produz grande quantidade de matéria seca de alta relação C/N, que persistirá por mais tempo sobre o solo.
Quando as plantas atingem o ponto de corte, é utilizada uma roçadeira ecológica para direcionar o material ceifado sob as mudas de café.

Material depositado sob o café.

 Os principais benefícios desta prática são:

  1. Diminuição da temperatura do solo: Quando a temperatura do solo atinge 33°C, parte das raízes absorvedoras morrem. A proteção do solo com a palhada impede a incidência direta de luz no solo e diminui a temperatura do mesmo, tornando o ambiente mais propicio ao desenvolvimento radicular.
  1. Diminuição da perda de água: Após as chuvas, o solo protegido com palha conserva a umidade por mais tempo. Nos meses secos a cobertura do solo com palhada de braquiária reduz em até 49% a perda de água em relação ao solo descoberto (PEDROSA, 2013).

 

  1. Supressão de plantas daninhas: A braquiária é uma gramínea agressiva que domina a área após sucessivas roçadas. Sendo assim ocorre diminuição da germinação do banco de sementes que pode conter propágulos de plantas indesejáveis como a corda-de-viola, buva, amargoso e trapoeraba.
  1.   Fornecimento de nutrientes: As plantas de cobertura absorvem os nutrientes necessários para seu desenvolvimento na entrelinha e depois de roçada os libera de forma lenta e gradual para a muda de café, sendo um complemento às adubações.

 

  1. Outros: Além de todos os benefícios citados acima as plantas de cobertura também melhoram a estrutura do solo pela formação de agregados, aumenta o teor de matéria-orgânica e fósforo no solo, diminui a população de nematóides do gênero Meloydogine, diminui a erosão causada pelo escorrimento superficial de água, aumenta a atividade biológica do sistema e serve de abrigo para inimigos naturais de pragas do cafeeiro.


Mudas após 100 dias de plantio e segunda roçada ecológica, agora com predominância apenas da braquiária.

CONCLUSÃO
O custo de implantação do cafezal sobe a cada ano e práticas que ajudem no seu desenvolvimento e produtividade são extremamente desejáveis para que o retorno do investimento ocorra mais rápido.
O uso do preparo profundo de solo e das plantas de cobertura são estratégias que tem mostrado grande potencial para mitigar os riscos inerentes à produção de café. Estas práticas funcionam porque dentre outros benefícios, facilitam o acesso do cafeeiro ao insumo mais limitante da agricultura, que é a água. Que a exceção do plantio de café consorciado se torne a regra, assim como o plantio direto na palha. Assim poderemos produzir cada dia mais café e de forma sustentável. 
REFERÊNCIAS
PEDROSA, A.W. Eficiência da adubação nitrogenada no consórcio entre cafeeiro e Brachiaria brizantha. 2013. Tese (Doutorado em Fitotecnia) – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Universidade de São Paulo, Piracicaba, 2013. doi: 10.11606/T.11.2013.tde-15032013-101246. Acesso em: 2018-01-30.

Nome: Bruno Souza Maciel
Formação: Eng. Agrônomo
Atuação: Consultor em Cafeicultura pela ViaVerde Consultoria.
Regiões: Alta Mogiana Paulista, Sul/Sudoeste de Minas e Chapadas de Minas.
Contato: (35) 99967 5500
bruno@viaverde.agr.br