Fim do Pecuarista de Final de Semana

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Fim do Pecuarista de Final de Semana
Assunto: Pecuária de Corte
Autor: Murilo Martins F. Bettarello


Data de Publicação: 10/10/2011

Murilo Martins F. Bettarello, é Eng. Agrônomo e consultor agrícola da Via Verde Consultoria Agropecuária em Sistemas Tropicais (mbettarello@viaverde.agr.br)



A pressão internacional no Brasil é forte, o mundo deseja que o Brasil forneça alimentos e energia necessários para sustentar uma população em 2030 de aproximadamente 9 bilhões de pessoas e, ao mesmo tempo, preserve o meio ambiente, será que isso é possível?

Felizmente sim. Para alivio de um mundo ávido por alimentos, energia e a mantença da paz mundial, diversos setores da agricultura nacional têm mostrado que, com eficiência e trabalho, é possível suprir o resto do mundo produzindo mais e melhor, utilizando de forma mais eficaz nossos recursos naturais.

No setor de carne bovina, uma das alternativas para aumentar nossa eficiência produtiva é substituir a expansão horizontal pela expansão vertical, isto é: colocar mais “cabeças” nos pastos já manejados.

No passado, inclusive com incentivo do Estado, era mais fácil e barato adquirir novas áreas, ao invés de investir em intensificação. Muitos pecuaristas, através de muito trabalho e suor, foram bem sucedidos e construíram grandes fazendas no Norte e Centro Oeste do país, aumentando seu rebanho e sua área ao mesmo tempo.

No entanto, o mundo muda, e ações que deram certo no passado não são garantia de sucesso no futuro. Hoje o consumidor deseja um produto com garantia de origem, que respeite o meio ambiente e a comunidade que sua produção esta inserida.

Na região Norte, o principal fator limitante para expansão pecuária horizontal é a questão ambiental, visto que em algumas áreas só é permitido utilizar 20% de sua área para fins produtivos o restante fica com reserva ambiental. Já nos estados do Sul, Sudeste e Centro Oeste do país, a limitação não é só ambiental, mas sim a pressão e concorrência de outros setores da agricultura na implantação de novas áreas de produção em locais de pastagens degradadas. Isso nos mostra que o espaço para a pecuária extensiva está cada vez menor e a tendência ainda é diminuir, pegamos o exemplo da Argentina que exportava carne bovina a custa de terras férteis e baratas, com baixo custo de produção sua carne era muito competitiva. Hoje áreas tradicionais de pecuária deram lugar a agricultura industrial e a exportação de carne no país vizinho caiu ao longo da década.

A FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) prevê que a produção de carnes precisa crescer 48% até 2030, e os preços da carne vermelha subirão cerca de 30% nos próximos 10 anos.

Em maio/2011, o valor da carne vermelha (brasileira) in natura alcançou o valor mais alto da história, com o preço de U$ 5.226/ton. Do equivalente carcaça. Com o aumento da demanda gerado pelo aumento populacional, bem como a melhoria na renda da população, o Brasil deve encerrar 2011 com mais de 10 milhões de toneladas de carne bovina exportada, o que corresponde a cerca de 25% das exportações mundiais.

Para suprir toda esta demanda, e ainda garantir a produção de grãos e energia, os pecuaristas precisam fazer sua lição de casa. É preciso produzir mais e melhor, áreas marginais, encostas que não são aproveitadas para agricultura e pecuaristas de final de semana. Todos precisamos melhorar a produtividade de nossas áreas, a fim de produzir alimentos e aumentar a lucratividade de áreas pouco exploradas, é necessário planejamento, acompanhamento técnico e profissionalização da atividade. Não há mais espaço para pecuarista de final de semana.

Em algumas regiões assistidas pela Via Verde, regiões estas que a pecuária possui a agricultura como “concorrente”, já foi possível aplicar tecnologias como: Rotação de piquetes, ILP (Integração Lavoura Pecuária), suplementação estratégica, confinamento, e outras técnicas que permitem ao produtor a obtenção dos mesmos ganhos/hectare que obteriam, no caso de arrendamento de terras para usinas de cana de açúcar, ou até mesmo a produção de grãos.

O ultimo censo agropecuário do IBGE já indica uma verticalização. Entre 1996 e 2006 a pecuária de corte perdeu 10,7% de suas áreas de pastos (177 milhões para 158 milhões de hectares) e ganhou 11,7% em número de cabeças de gado (153 milhões para 171 milhões), isso nos mostra que pelo menos 20 milhões de hectares passaram de pastagens para agricultura.

Se consideramos uma área de pastagens de 158 milhões de hectares, bem como considerarmos a lotação média nacional de 0,7 Unidade Animal/há (1 UA=450Kg peso vivo), teríamos hoje a capacidade de suporte de cerca 110 milhões de UA, e de 165 milhões de animais.

Sem muitas dificuldades e com técnicas de pastejo deferido, conseguiríamos facilmente dobrar esta lotação para 1,4 UA/há, e com isso possuir uma capacidade de suporte de mais de 300 milhões de animais.

A título de exemplo, relatamos a realidade implantada em uma propriedade média na região da Alta Mogiana Paulista com forte concorrência da agricultura.

A propriedade em questão possui 147 hectares de área útil, tendo abatido, no ano de 2008 (inicio da consultoria), 150 cabeças de gado (fêmeas), considerando neste contexto a compra de animais com 7@´s e a venda com 13 @´s, a propriedade produziu em 2008, 900@, com uma média de 6,12 @/hectare, valor já superior a média nacional que é de 4@/há ano.

Aplicando técnicas como pastejo rotacionado, nutrição estratégica, confinamento e Integração Lavoura Pecuária (ILP), foi possível em 2010, o abatimento de 498 animais (a meta é 1000) e a produção anual de 2988@, com uma média de 20,32@/hectare e faturamento/hectare de cerca de R$ 1.800 , que é o mesmo faturamento de uma produção de grãos utilizando alta tecnologia.

Hoje muitas fazendas realizam pecuária em áreas marginais (baixadas, topografia acidentada, etc), que não são aproveitadas pela agricultura, nesse contexto, é possível aumentar a intensificação mesmo em áreas marginais e, ainda, contribuir com a oferta de alimentos para o mundo.

É preciso aumentar a eficiência da atividade, produzindo mais e melhor, em qualquer pedaço de terra que possuímos, o Brasil ainda é um pais de dimensões continentais, no entanto, quando é preciso alimentar o mundo não somos tão grande assim!!!