Correção do solo visando equilibrio produtivo



Correção do solo visando equilibrio produtivo
Assunto: 10 Artigos Mais Lidos
Autor: Pedro Paulo de Faria Ronca

Um solo corrigido oferece boas condições para o desenvolvimento do sistema radicular das plantas e possibilita um melhor aproveitamento dos adubos aplicados. Corrigir a acidez dos solos é em geral uma medida necessária, já que no Brasil a maior parte dos solos cultivados tem acidez pronunciada. O insumo mais utilizado para correção de acidez é o calcário, entretanto este não é a única forma de correção dos solos e, se mal utilizado, pode trazer problemas ao invés de soluções.

Cuidados na aplicação do calcário.
O calcário é um insumo para correção de solo que apresenta baixo custo, mas merece muita atenção no uso. Apresenta uma solubilidade baixa em água o que dificulta que desça pelo perfil do solo ficando concentrado nas camadas superficiais. Portanto, é recomendado atenção na aplicação para se respeitar as doses recomendadas e lembrando-se que o produto deve ser muito bem espalhado, pois só age no local em que foi aplicado. Altas doses de calcário em superfície em geral resultam num aumento do pH do solo na camada superficial e uma indisponibilização de micronutrientes, principalmente Ferro, Cobre, Manganês, Zinco e Boro e provável desequilíbrio de Potássio pelo antagonismo com o Cálcio e Magnésio do calcário.

O melhor momento para realizar a calagem em qualquer solo é antes da implantação da lavoura. Caso a análise de solo indique necessidade de calagem o calcário deve, preferencialmente, ser incorporado no solo por meio de aração e gradagem. Um bom método prático para se aplicar o calcário de maneira bastante uniforme no perfil é aplicar metade da dose recomendada diretamente no solo, realiza-se então a aração profunda e posteriormente aplica-se a outra metade da dose do calcário e passa-se a grade, procurando desta forma distribuir o calcário ao longo do perfil do solo. Quanto mais fundo e incorporado se aplicar o calcário melhor os seus benefícios a longo prazo.

Em regiões montanhosas, ou em locais onde não se pretende arar e gradear o solo o a correção do solo pode ser feita no sulco de plantio ou diretamente nas covas. Nestes casos deve-se estar ciente que está se criando um ambiente favorável à raiz dentro do sulco/cova e fora deste o crescimento das raízes é menor. Uma maneira prática de diminuir os prejuízos da concentração de raízes dentro do sulco/cova é, no momento do plantio da lavoura, aplicar o calcário em área total e em superfície nas ruas entre as linhas de plantio. Esta não é a maneira ideal, mas permite uma correção lenta e gradual das entrelinhas que diminuirá o gradiente de solo corrigido conforme as raízes do café forem explorando maiores volumes de solo.

Após a instalação da cultura a aplicação de calcário, quando necessária, deve ser feita em cobertura e de preferência em área total. O calcário pode ser aplicado o ano todo, mas a época mais recomendada é no período de seca (mai-ago), pois tem mais tempo de reagir com o solo antes de se iniciarem as adubações e o transporte e manuseio na época seca é mais fácil.

Equilíbrio do solo: a chave para a estabilidade produtiva
O uso contínuo de fertilizantes e a extração de nutrientes do solo pelas plantas de café fazem com que, após um período variável da instalação da cultura, seja necessário corrigir o pH, elevar os teores de Cálcio e Magnésio, elevar a Saturação de Bases (V%), e neutralizar o alumínio. O calcário realiza todas essas funções no solo. Entretanto, em diversas situações o solo está desequilibrado em um desses teores, mas não nos outros. Temos então que buscar alternativas ao calcário para não agravar os problemas de equilíbrio de nutrientes.

A Saturação de Bases (V%) é um ótimo indicador da condição nutricional do solo, tanto é verdade que um dos métodos mais utilizados de recomendação de calagem se utiliza dos valores de V%. Para o café a pesquisa tem mostrado que valores entre 50-60% seriam os ideais. Quando se tem valores de V% abaixo de 50%, esse pode ser corrigido com calcário, mas quando temos valores de V% acima de 60% podemos corrigi-lo com o uso de gesso.

O Cálcio é um nutriente de extrema importância para a planta, pois faz parte da constituição da parede celular e do sistema radicular, as raízes do cafeeiro só se desenvolvem aonde tem cálcio.

O Gesso como aliado na correção do solos
O Gesso Agrícola é composto basicamente por Sulfato de Cálcio (contendo em média 16% de cálcio e 13% de enxofre), não corrige o pH, mas neutraliza o Alumínio que é muito prejudicial ás raízes das plantas. É uma fonte barata de cálcio e enxofre e, sendo bem mais solúvel que o calcário, atua em camadas profundas melhorando o ambiente para as raízes. O gesso não precisa ser incorporado como o calcário, pois com as chuvas ele desce no perfil e corrige o solo em profundidade. Entretanto, o seu caminhamento no perfil do solo não é rápido como os adubos altamente solúveis e essa correção é gradual e dependente de meses de chuva.

O gesso tem a característica de, ao descer no perfil do solo, carregar as bases, principalmente o Magnésio e o Potássio, e em altas doses pode levar à deficiência desses nutrientes. Em doses adequadas pode trazer enormes benefícios. Ao levar as bases para baixo no perfil aumenta-se a fertilidade do solo em sub-superfície, o que estimula o desenvolvimento radicular nesta região e aumenta a resistência das plantas a seca já que as raízes explorarão maiores volumes de solo. Quando se aplica gesso todo ano, deve-se monitorar por meio de análises de solo os teores de cálcio, magnésio e potássio tanto nas camadas de 0-20cm como nas de 20-40cm.

Uma possibilidade de uso do gesso é em associação com o calcário em que os benefícios dos dois poderiam ser somados. O calcário preferencialmente deve ser aplicado antes do gesso, mas pode ser aplicado conjuntamente misturando-se os dois e com isso economizando-se na aplicação. Obviamente deve-se estudar caso a caso esta recomendação observando-se sempre a análise de solo.

Outras opções a se considerar na correção dos solos
Quando se utiliza corretivos de solo deve-se atentar para a relação Cálcio/Magnésio que deve ficar entre 3:1 a 5:1. O Sulfato de Magnésio (15% de MgO e 15% de Enxofre) tem uma disponibilização rápida do Mg, pode ser usado em locais com deficiências severas e que necessitam correção imediata, mas seu alto custo muitas vezes inviabiliza a aplicação. Uma alternativa disponível no mercado para fornecimento de Magnésio é o Óxido de Magnésio, com preços mais acessíveis que o Sulfato de Magnésio, mas oferece uma correção a longo prazo, pois a disponibilização do Magnésio é lenta.

Pode-se observar na Figura 1 folhas velhas com sintoma de deficiência de Magnésio em lavouras com desequilíbrio. Nos cultivares derivados do Mundo Novo é comum encontrar esse sintoma.

Existe atualmente no mercado o Silicato de Cálcio e Magnésio que contém de 20-36% de Cálcio, 5-9% de Magnésio, e 10-23% de Silício. Atua como o calcário corrigindo o pH, fornecendo Ca e Mg, indisponibilizando o Alumínio e fornecendo Silício. Já estão comprovados cientificamente os benefícios do silício nas culturas de cana-de-açúcar e arroz, entretanto no café ainda não existem pesquisas conclusivas sobre os benefícios desse nutriente.

Independente do corretivo utilizado deve se buscar sempre um equilíbrio entre os nutrientes no solo e na planta!


Bibliografia:
- Matielo, J. B., Quentes como o café, Rio de Janeiro, 1999
- Raij, Bernard van, Fertilidade do solo e adubação, Piracicaba, Ed. Ceres, Potafos, 1991
- Zambolim, Laércio, Tecnologias de produção de café com qualidade, Universidade Federal de Viçosa, Departamento de Fitopatologia, 2001